5 de novembro de 2011

Não lembrar de sonhos


“Os sonhos não nos protegem das vicissitudes, doenças e eventos dolorosos da existência. Mas eles nos fornecem uma linha mestra de como lidar com esses aspectos, como encontrar um sentido em nossas vidas, como cumprir nosso próprio destino, como seguir nossa própria estrela, por assim dizer, a fim de realizar o potencial de vida que há em nós.”
“A maioria das pessoas que entrevistamos na rua afirma não se lembrar dos próprios sonhos. Um rapaz, bem humorado, disse: “A única coisa que me lembro dos sonhos é que não consigo lembrar deles.” Por que as pessoas não se lembram dos próprios sonhos?
Acho que é porque não prestam atenção. Algumas pessoas que me procuraram já disseram coisa do tipo: “A senhora analisa as pessoas através dos sonhos, não é? Bem, comigo não vai dar certo porque nunca sonho” Dou um sorriso amarelo e digo: “Tudo bem, vamos ver.” Na noite seguinte eles devem ficar remoendo: “Será que vou sonhar?”  Muitas vezes, o simples fato de colocar a questão provoca um sonho. Assim, na verdade, nunca encontrei alguém que não sonhasse. Salvo, às vezes, pessoas num estado de depressão muito forte, que ficam com o que chamo de constipação onírica. Pessoas assim sonham pouco e costumam sentir-se melhor quando começam a sonhar. Os sonhos também rareiam na velhice, após os 80 anos, mas eles reaparecem um pouco antes da morte.”
Essas são citações de Marie Louise em seu livro O Caminho dos Sonhos.

29 de outubro de 2011

Sonhos = perseguição de animais


Marie Louise, em seu livro O Caminho dos Sonhos contou:
Lembro-me de um homem talentoso na escrita, que devia escrever sua tese para o Instituto Jung de Zurique. Ele sonhava que animais poderosos o perseguiam, o que eu interpretava como sua criatividade querendo atingi-lo. Mas ele não a aceitava. Ele sustentava tratar-se de sexualidade. Ora, na realidade ele tinha uma namorada e uma vida sexual satisfatória, portanto eu não acreditava em sua interpretação. Mas ele não queria e não conseguia escrever, até sonhar que estava sendo perseguido por um touro. Ele corria e o touro vinha atrás, cada vez mais perto, até finalmente saltar uma cerca. O touro parou e se levantou sobre as patas traseiras. O sonhador olhou para trás e viu o pênis ereto do touro, que era uma caneta esferográfica. Aí ele disse: “Tudo bem, está certo.” Então ele escreveu uma tese excelente.
De modo geral, se algo nos sonhos nos persegue, é porque quer chegar até nós. Mas nosso medo lhe confere uma aparência maléfica. Se formos capazes  de encarar esse lado da nossa natureza e aceita-lo, provavelmente ele se tornará mais benevolente. É claro que todas as regras de interpretação de sonhos são paradoxais. Às vezes somos perseguidos num sonho por poderes do inconsciente dos quais é correto fugir. Na psique há tendências destrutivas que devemos evitar. Mas 80% do que nos persegue em sonhos é, na verdade, algum aspecto valioso da nossa personalidade que deveria ser integrado.

22 de outubro de 2011

Sonho - excesso de trabalho


Uma executiva sonhou: “Eu estava com um colega de trabalho caminhando por uma avenida, quando de repente apareceram alguns homens e nos raptaram. Ficamos presos num lugar escuro, sabíamos que estávamos sendo bem remunerados por ficarmos ali, mas queríamos sair e não conseguimos.”
Esse é um tema comum nos sonhos da mulher moderna. Essa força que tem aprisionado a mulher, geralmente, é o seu lado masculino exigente, que a leva a ser uma profissional eficiente, mas também a faz viver em função, quase que exclusiva, do seu trabalho e sentir-se exausta, culpada por não ter tempo para investir em sua vida pessoal. Esse alto nível de exigência é uma força que vive na psique feminina, mas também tem sido alimentada por empresas e instituições que exigem dos funcionários que “vistam a camiseta” e dediquem-se exclusivamente ao trabalho.
Em 2008, Plutão entrou no signo de Capricórnio. Capricórnio é um símbolo da energia masculina voltada para o trabalho, o senso de responsabilidade e dever. Acredito que entramos num período (até 2023), no qual é necessário revermos nossa relação com o trabalho, que empresas e grandes instituições comecem a preocupar-se com o desgaste humano, o estresse e a correlação entre bem-estar psicológico e produtividade.

15 de outubro de 2011

Plutão nos signos


Na dança cósmica, aos olhos da Terra, os planetas distantes do Sol são lentos.  Plutão, por exemplo, fica no mínimo uma década no mesmo signo, por isso o significado simbólico de sua presença num signo não indica apenas características pessoais e sim a energia coletiva do momento. Assim, como Plutão representa transformações profundas, o signo onde ele encontra-se mostra, simbolicamente, qual é a “área” da sociedade  que sofrerá transformações importantes.
Por exemplo, Libra representa o princípio feminino, o relacionamento amoroso, o casamento. Em 1971, Plutão entrou em Libra e saiu em 1984. Esse foi o período em que o movimento feminista estava em pleno vapor, o que levou a modificações profundas no papel da mulher na sociedade. No Brasil, a lei do divórcio foi aprovada e o casamento deixou de ser apenas um contrato social, para tornar-se uma opção entre duas pessoas.
Lembro-me que na época os astrólogos temiam a entrada de Plutão em Escorpião, que iria acontecer em 1984 e sair em 1995; muitos previam grandes catástrofes e até mesmo a Terceira Guerra Mundial. O que ninguém imaginava é que a grande transformação seria a queda do muro de Berlim, com o fim da terrível Guerra Fria.

8 de outubro de 2011

Plutão


Na mitologia grega, quando a pessoa morria ela ia para o submundo, lá era recebida por Plutão e ele indicava a região em que o morto iria ficar. Ele era o deus soberano do submundo. Por reinar no mundo subterrâneo, Plutão indica a necessidade de entrar em contato com as camadas profundas da psique humana; por receber os mortos, a capacidade de transformação; e por ser o Soberano, a ânsia de poder, a vontade de ter o controle em suas próprias mãos.
Na Astrologia, Plutão rege o signo de Escorpião e seu significado simbólico é semelhante ao mito. Gleide era do signo de Escorpião e essa energia plutônica é visível em seu processo: ela desejava ter o controle da vida de seus entes queridos; depois transformou-se penetrando em camadas profundas de sua psique, participando de diversos processos de autoconhecimento e reconhecendo seu próprio poder.

1 de outubro de 2011

Sonho - Lobo


O tempo passou e Gleide contou o seguinte sonho:
“Eu e um lobo estávamos caminhando por uma rua de terra, chegamos numa choupana. Quando entrei na choupana vi que era um palacete. Vi um porta jóias, o abri e vi um anel de brilhante. Perguntei qual era o significado disto, uma voz respondeu: é a dignidade.”
O simbolismo do lobo foi ricamente explorado por Clarissa Pínkola, em seu livro As Mulheres que correm com os lobos. Ele é um símbolo da força e do poder.
O sonho de Gleide indicava que no caminho de reconhecimento do seu próprio poder, ela acreditava que havia conquistado muito pouco (chegou numa choupana), mas, na verdade, sua vida havia ficado mais rica (era um palacete). E, realmente, Gleide estava mais espontânea, estava criando uma relação mais amorosa com seus familiares e amigos, e, principalmente, estava restaurando sua dignidade, tão danificada por uma sociedade preconceituosa.

24 de setembro de 2011

Sonhos - Crítica


Gleide contou o seguinte sonho: “Era noite escura. Eu caminhava por uma rua estreita. O caminho ia estreitando-se cada vez mais. Eu tive que arrastar-me para conseguir passar. Uma voz falou que este caminho era a Crítica. Sei que sai do outro lado, mas não vi nitidamente onde cheguei. Ouvi cantos de pássaros.”
O irmão de Gleide havia sido demitido, e ela, como sempre, não parava de criticá-lo por ser irresponsável. Ela vivia preocupada com os sobrinhos, pressionando-os para estudarem. Ela acreditava que “pegar no pé deles” era a melhor forma de ajudá-los a superar a pobreza.
O sonho dizia que o excesso de Crítica era um caminho muito estreito, isto é, restringia suas potencialidades e possibilidades de encontrar novos rumos para a sua vida. No final do sonho ela escapa e ouve cantos de pássaros, indicando que ela era capaz de mudar de atitude perante a vida.

17 de setembro de 2011

Sonho - guerra


Gleide sonhou que estava numa guerra; um amigo a puxou para ela esconder-se. Militares passaram bem perto dela, mas não a mataram.
A vida de Gleide sempre fora uma guerra: nasceu num bairro pobre, onde o perigo da violência estava sempre presente, teve que lutar contra a miséria e principalmente contra o preconceito por ser mulher e mulata. Assim ela vestiu uma armadura para enfrentar o campo de batalha. Mas, no sonho ela sente-se perdida, precisa da ajuda de um amigo para esconder-se, indicando que por trás da máscara de grande profissional havia uma menina desorientada, precisando de ajuda para escapar das armadilhas que a vida lhe impôs.
Nesse processo, ela corria o perigo de militares a matarem, o que simbolicamente representava o perigo dela tornar-se uma pessoa inflexível e rígida. E, realmente, ela era séria demais para dar uma risada. Precisava soltar-se e enxergar o valor das tolices, começar a rir de suas próprias dificuldades, aprender a desfrutar as coisas simples e apenas acompanhar o fluxo da vida.

10 de setembro de 2011

Sonhos - serpente


O segundo sonho de Gleide foi o seguinte: “Eu estava preparando um grande evento. Vi um poço, olhei dentro dele e vi uma serpente imensa. Fiquei apavorada. Contei para o meu tio e ele controlou a serpente com tranqüilidade.”
A serpente lembra um falo e também está associada a terra, sendo assim é um símbolo do masculino e do feminino.
O sonho indicava que Gleide precisava encarar seu poder masculino, incorporar seu papel de gerente, aprender a lidar com as intrigas de poder na empresa e também desenvolver sua feminilidade. Uma tarefa nada fácil, pois Gleide era filha de mãe solteira; na ausência do pai, sua mãe foi obrigada a assumir o papel masculino e Gleide não tinha nela um modelo feminino.
Gleide também teve de desempenhar um papel masculino, começando a trabalhar aos 15 anos, investindo nos seus estudos, e isto salvou sua vida, tirando-a da miséria, da mesma maneira que, no sonho, o tio a salvou da serpente.
A questão era que Gleide estava distante de seus sentimentos e instintos femininos, fazia do trabalho sua “única” fonte de realização. 

3 de setembro de 2011

Sonhos - carro


Gleide, 50 anos, procurou-me porque havia sido pro movida a gerente e queria desenvolver sua capacidade de liderança.
Vestida com um terninho marrom, quase da mesma cor de sua pele, dava-me a impressão de querer ser invisível e sua postura a de estar vestida com uma armadura.
Nas sessões seguintes ficou claro o seu desejo de controlar, na tentativa de tornar sua vida mais segura. Junto com o controle, no entanto, vinha uma dose exagerada de responsabilidades, deveres e a sensação de exaustão.
Essa necessidade de controle era devido ao medo do irracional e portanto, o eliminava tanto quanto possível de sua vida. O irracional era associado com o tornar-se alcoólatra e irresponsável, como acontecera com seu único irmão. Com isto, ela se sentia alienada da espontaneidade e do inesperado, que são, justamente, os elementos que dão sabor e encanto à vida.
O seu primeiro sonho foi o seguinte: “Estava procurando o meu carro e não conseguia encontrá-lo. Eu não tinha certeza se alguém havia roubado, ou se eu não lembrava onde havia estacionado. Cheguei em frente a casa onde eu morava na minha infância e vi que a casa havia sido demolida, só havia o terreno. Fiquei contente, porque assim eu poderia construir uma nova casa da minha maneira”.
O sonho era promissor. Ela estava procurando seu carro, isto é, uma maneira de dirigir sua própria vida. No processo ela teria de despedir-se do seu passado, período mais difícil de sua vida, e reconstruir sua história.