22 de fevereiro de 2013

Lições de um xamã


Li pela primeira vez uma obra de Carlos Castaneda, 
o autor do livro Erva do Diabo, em um momento difícil de minha vida, quando meu marido foi diagnosticado com uma doença que podia ser fatal. 
Esperava ler um livro sobre drogas, mas, para minha surpresa, não era nada disso. O livro descrevia, nas palavras de um xamã mexicano, D.Juan, como os índios de sua etnia encaravam a vida enfrentavam e as dificuldades que todos nós enfrentamos: medo, insegurança, doença, velhice,  etc.
A pergunta que eu me fazia nessa época, e para a qual eu não tinha resposta, era porque isto (a doença de meu marido) havia acontecido conosco. É uma pergunta que todos nos fazemos quando somos atingidos por uma desgraça, um acidente, a morte de alguém querido, ou mesmo quando aquilo que desejamos ardentemente nos é negado. 
Os ensinamentos do xamã indígena, D.Juan, me ajudaram a perceber que eu, mais que resposta a minha pergunta, estava adotando o papel de vítima, sentindo pena de mim mesmo, e que precisava lutar contra esse inimigo, pois a autopiedade é um veneno que enfraquece nossas almas e nos torna impotentes..

10 de novembro de 2012

A Transformação

Eduardo sonhou que estava num bar imenso, onde ia tocar com sua banda. Neymar, o jogador de futebol, ia tocar também, ele sabia tocar, mas estava tocando os acordes errados. Eduardo localizou no celular, via internet, a partitura da música que iam tocar e mostrou para o Neymar. Nesse momento, Eduardo viu uma mulher linda, mas achou que não era para o "bico dele" e foi sentar num canto do bar. Para a sua surpresa, a mulher veio em sua direção e sentou ao seu lado, bem encostadinho.
Esse sonho mostra o quanto Eduardo havia avançado em seu processo terapêutico. Tempos atrás ele tinha sonhado que Neymar, seu aspecto masculino inconsciente, estava amarrado. Nesse sonho ele está livre, desenvolvendo uma nova habilidade, indicando que Eduardo estava conseguindo transformar seu lado arrogante em algo criativo.
No primeiro sonho de Eduardo, o feminino aparece apenas com pernas, com o tempo apareceu em seu sonho como uma cachorrinha, nesse ela surge em seu aspecto humano e inteira, indicando que houve também crescimento no aspecto feminino de Eduardo. A terapia estava avançando, Eduardo estava se tornando mais ele mesmo: mais solto e atraente, sem receio de se aproximar das mulheres.

27 de outubro de 2012

Tornando-se adulto

Eduardo não sabia se era um sonho ou uma imagem, pois parecia real: "Eu e o meu pai estávamos num barco pescando, o meu pai desapareceu e eu tinha que pescar sozinho, pensei: e se eu pescar um peixe envenenado?"
Essa é uma boa imagem que mostra um fato muito real: o filho deve aprender a pescar com o pai, mas chega um momento em que o pai tem que sair de cena e o filho tem que seguir sozinho o seu caminho. Tem que pescar sozinho, mesmo que isso seja perigoso, isto é, que aja peixes envenenados no rio. É o momento em que o individuo deixa de viver o papel de filho para tornar-se um homem adulto. Eduardo estava nesse momento, mas tinha medo de não ser capaz de caminhar com suas próprias pernas.
É incrível a semelhando desse sonho com um conto de fadas: Era uma vez um pescador que tinha um filho...

21 de outubro de 2012

Sonhos e Contos de Fadas

Quando li pela primeira vez um livro de Marie Louise Von Franz, uma discípula de Jung, sobre  interpretação de contos de fadas, fiquei fascinada: senti que um novo universo abria-se a minha frente. Contos que antes pareciam bobos, quando compreendidos em seu sentido simbólico tornavam-se ricos de significados. Mas, você pode perguntar, "qual é a utilidade de aprender a interpretar contos, não é como pesquisar o sexo dos anjos?" A resposta estava no próprio livro: tanto os sonhos quanto os contos utilizam-se da mesma linguagem: a simbólica. Ao aprendermos a interpretar contos, estamos aprendendo a interpretar sonhos e é compreendendo os sonhos que compreendemos as pessoas.
Um bom exemplo é a afirmação de Marie Louise: um fator comum nos contos de fadas é que sempre que o personagem relaciona-se  bem com o cachorro ele tem um final feliz, e quando acontece o contrário, o personagem não é o herói e sim o vilão. Assim, simbolicamente, relacionar-se bem com o cachorro nos sonhos, significa relacionar-se bem com o seu lado instintivo.

6 de outubro de 2012

Sonho - a tristeza

Eduardo e sua namorada se separaram, isso o deixou muito deprimido, nesse dia ele teve o seguinte sonho: 
"Era noite. Eu estava na Marginal Tietê. Vi que havia uma floresta no meio da Marginal, quando cheguei perto da floresta vi um caminhão com baú atrás, parado. Eu e uma cachorrinha entramos no baú e dormimos abraçados. O caminhão movimentou-se, mas não acordei. Quando amanheceu a porta do baú abriu-se e a cachorra foi embora. Fui olhar pela janelinha da carroceria para ver quem estava dirigindo e vi que era ninguém, nesse momento entrou luz no baú. Eu estava com receio de que a cachorra não voltasse."
O fato de ser noite, de estar na Marginal (lugar que ele considerava  sombrio), dentro de um baú, mostram a tristeza de Eduardo. O fato de ninguém estar dirigindo o caminhão, demostra que ele não se sentia capaz de tomar as rédeas de sua vida. O feminino aparece como uma cachorrinha, um ser irracional, porém capaz de amor, carinho e lealdade. Ele sente falta do feminino (a namorada), mas ainda não era capaz de vê-la como uma criatura completa, humana, igual a ele, com quem ele pudesse dividir seu destino. A luz que entra no baú ao final do sonho, no entanto, representava uma esperança.

29 de setembro de 2012

Sonho - mãe devoradora

Eduardo sonhou que estava com a namorada num estádio de futebol.  Ele entrou num quartinho embaixo da arquibancada. Lá, ele viu sua mãe, sua irmã e o Neimar. Neimar estava deitado de costas, com as mãos e os pés amarrados para trás. A mãe do Eduardo enfiou uma espécie de metal no ânus do Neimar. Eduardo  perguntou porque ela estava fazendo isto, ela respondeu que era assim que se fazia na classe média. Ele voltou para o lugar onde a namorada o esperava.
Eduardo descreveu Neimar como sendo um grande jogador, muito profissional e eficiente, mas, também arrogante.
O sonho se passa em dois planos: o da superfície, o estádio, onde Eduardo leva sua vida normal e passeia com sua anima. Na realidade, Eduardo estava apaixonado e vivendo momentos felizes.
Em outro plano, embaixo da arquibancada, no mundo inconsciente de Eduardo, as coisas não iam tão bem. Lembrem-se que no sonho anterior a namorada dirigia o avião, nesse a mãe tortura  Neimar, que representava um aspecto masculino, o de profissional bem sucedido de Eduardo. Assim, para tornar-se o homem que desejava ser Eduardo ainda precisava libertar-se dos resquícios da dominação de sua mãe.

23 de setembro de 2012

O Feminino no comando

Depois de um certo tempo, Eduardo, que estava com uma nova namorada, teve o seguinte sonho: uma mulher simples (sem maquiagem, com uma blusa com alcinhas) estava dirigindo um avião e ele estava ao lado. Eles estavam indo para Campinas. O avião não subiu muito, ele pensou: é normal, pois Campinas é muito perto. A piloto disse que o avião estava com problemas, por isso aterrizou em São José dos Campos. Ela fez que ia vomitar, disse que não estava muito bem, mas o olhou de uma maneira como se dissesse: eu não tenho nenhum problemas, só estou fazendo charminho para você cuidar de mim.
O Ego não está na direção. Quem dirige o avião é o aspecto feminino de Eduardo, sua anima, aqui, ao invés de ser vista como inferior (só pernas ou mergulhada no cocô). a anima é vista  como superior. Seu medo de ser dominado por uma mulher volta a manifestar-se: ora ela no comando, ora fazendo chantagem emocional.

15 de setembro de 2012

O feminino depreciado

Eduardo sonhou; "Uma colega de trabalho estava passando mal do estômago. Eu disse que cuidava dela, porque estava acostumado com pessoas bêbadas. Eu a segurei, mas ela foi ao mictório e começou a vomitar. Quando vi ela estava dentro da privada misturada entre o cocô e o chichi."
Esse sonho o lembrou o fato da mulher, pela qual ele estava apaixonado, ter bebido muito numa balada e ele tê-la levado para fora, quase a carregando no colo. Contou outras situações,  nas quais ele cuidou de mulheres bêbadas.
Vejam que a imagem do feminino continuava depreciada, a mulher confundia-se com o cocô, em suma, ele considerava  a mulher "uma merda". E ele agia de maneira maternal com as mulheres, afinal ele havia aprendido com a mãe a cuidar dos outros.
Ele comprou um "carrão", mas descobriu que isto não funcionava para conquistar as mulheres, porque, quando ele chegava numa balada o carro ficava no estacionamento e nenhuma mulher via com  que carro ele chegava. Em suma, estava começando a descobrir que não era a aparência que o faria conquistar uma mulher e sim mudar sua imagem do feminino.

9 de setembro de 2012

O feminino e a mãe

Eduardo contou o seguinte sonho: "Minha mãe me deu uma marmita. Fui trabalhar, chegou a hora do almoço, eu não sabia como esquentar a marmita sem que as pessoas vissem. Decidi esquenta-la no micro-ondas que estava na sala do meu chefe. Não sei se cheguei a esquenta-la e se a comi."
A primeira imagem que o homem tem de uma mulher é a da mãe. Assim, não surpreende que no seu processo de integração da figura feminina, Eduardo procurasse  reavaliar a herança materna, isto é, as ideias e sentimentos que a mãe lhe transmitira, representadas no sonho pela marmita. Os pais de Eduardo eram separados e ele vivia com a mãe e as irmãs mais velhas. Era uma casa onde o ponto de vista feminino dominava. Não era fácil para ele manter o seu ego masculino. No jogo de poder entre homens e mulheres Eduardo estava acostumado a perder e por isso desenvolvera uma forte defesa em relação a tudo que é feminino. O sonho mostra que sua saída era ir para a sala do chefe, isto é, identificar-se com o seu pai.

1 de setembro de 2012

Sonho - As mulheres surdas e mudas


A dificuldade que Eduardo tinha de relacionar-se com mulheres, a qual ele atribuía ao fato de não ser rico e bonito o suficiente, devia-se na verdade a imagem equivocada que ele fazia delas, como veremos no seu segundo sonho: “Eu estava na rua e via algumas mulheres que só tinham corpo da cintura para baixo. Alguém disse que deveriam avisa-las para terem cuidado, porque podiam ser atropeladas. Fui avisa-las, mas pensei: como vou avisa-las se elas não escutam, elas até podem escutar, mas como vão falar comigo?”
Eduardo só via as mulheres da cintura para baixo, ou seja, como objeto sexual. Ele adorava ler e tinha uma vasta cultura. Acreditava que não tinha como compartilhar esse conhecimento com as mulheres. Talvez a origem desse preconceito estivesse em sua infância: seu pai era  professor universitário e sua mãe, dona de casa. Para poder relacionar-se com as mulheres era preciso que ele as visse como pessoas, isto é, como personalidades completas, tão capazes de manter uma conversa inteligente quanto qualquer homem.